{"id":3892,"date":"2021-05-15T15:35:06","date_gmt":"2021-05-15T15:35:06","guid":{"rendered":"https:\/\/id.letras.up.pt\/citcem-fontes-documentais\/?page_id=3892"},"modified":"2022-04-19T11:02:37","modified_gmt":"2022-04-19T11:02:37","slug":"sobre-colguimaraes","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/id.letras.up.pt\/citcem-fontes-documentais\/sobre-colguimaraes\/","title":{"rendered":"Sobre a Cole\u00e7\u00e3o Guimar\u00e3es"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-columns are-vertically-aligned-center is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-28f84493 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<h2 class=\"has-default-color has-text-color has-huge-font-size wp-block-heading\">A minha <a href=\"https:\/\/id.letras.up.pt\/citcem-fontes-documentais\/colecao-guimaraes\/\">cole\u00e7\u00e3o<\/a>, a minha vida. <br>A minha biblioteca <\/h2>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button alignright has-custom-width wp-block-button__width-50 has-custom-font-size is-style-outline has-huge-font-size is-style-outline--1\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/id.letras.up.pt\/citcem-fontes-documentais\/colecao-guimaraes\/\">Ver Cole\u00e7\u00e3o<\/a><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\"><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p><!-- \/wp:post-content --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Uma biblioteca \u00e9 um conjunto de livros e manuscritos irmanados pela alma do bibli\u00f3filo que os colecionou. A minha, \u00e9 o espelho do que sou, do que me conhe\u00e7o, do que ainda me desconhe\u00e7o e do que ainda me conhecerei. Sem ela sobrevivia, mas n\u00e3o saberia viver. Entrego-me de corpo e alma na esperan\u00e7a de a (me) compreender. O tempo que lhe dedico n\u00e3o \u00e9 um tempo de trabalho, nem de \u00f3cio, \u00e9 um tempo de medita\u00e7\u00e3o, um demorar-me no sil\u00eancio dos livros\u2026<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>A minha principal tarefa como bibli\u00f3filo \u00e9 cuidar deste conjunto de livros e manuscritos, refugiados do tempo e\/ou da insanidade inquisit\u00f3ria que frequentemente nos visita. Assegurar que me sobrevivam. Essa \u00e9 a principal tarefa. Assegurar que me sobrevivam.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>H\u00e1 na minha biblioteca \u201cfr\u00e1geis tesouros\u201d com necessidade de prote\u00e7\u00e3o. Quero dar-lhes a aten\u00e7\u00e3o que exigem. Quero que sobrevivam \u00e0 consumi\u00e7\u00e3o do tempo em nome das gera\u00e7\u00f5es de cuidadores que, ad infinitum, me suceder\u00e3o. O amor tamb\u00e9m \u00e9 cuidado. O bibli\u00f3filo para al\u00e9m de cuidador \u00e9 um amante. Um amante dos livros, do significado da linguagem escrita, um amante fraterno da humanidade. Um humanista.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>A minha biblioteca constr\u00f3i-se em volta das duas grandes paix\u00f5es da minha vida. A Hist\u00f3ria, como instrumento de racionalizar a interpreta\u00e7\u00e3o que fa\u00e7o do mundo, e a Poesia, interpreta\u00e7\u00e3o do ser humano, esse misterioso animal que tem o cond\u00e3o de pensar, amar e odiar. A Filosofia \u00e9 o fio que cose as p\u00e1ginas dispersas da minha biblioteca. Se tivesse que lhe dar um nome, chamar-lhe-ia LIBERDADE.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>\u201cSegundo Walter Benjamin, o que caracteriza o verdadeiro colecionador \u00e9 uma estupefac\u00e7\u00e3o perante as coisas, ou seja, essa capacidade de inspira\u00e7\u00e3o que precede a posse: \u201cAssim que (o colecionador) tem (as coisas) nas suas m\u00e3os, parece inspirado por elas, parece olhar atrav\u00e9s delas na dire\u00e7\u00e3o da sua dist\u00e2ncia, como se fosse um mago\u201d\u201d (1).<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>No meu caso pessoal essa estupefac\u00e7\u00e3o perante as coisas vai muito para al\u00e9m da inspira\u00e7\u00e3o que elas me causam, e que \u00e9 real. Assume foros de espanto metaf\u00edsico pois transcende a physis que est\u00e1 \u00e0 merc\u00ea da minha caducidade.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Numa \u00e9poca al\u00e9rgica ao sil\u00eancio, em que a comunica\u00e7\u00e3o se confunde com o ru\u00eddo, amplificado pela digitaliza\u00e7\u00e3o, pela desmaterializa\u00e7\u00e3o\u2026 Onde caber\u00e1 o t\u00e1ctil? O material? Na voragem da virtualidade n\u00e3o eliminaremos a realidade? A minha biblioteca \u00e9, para mim, a realidade recuperada (2). De cada vez que toco num dos pergaminhos, alguns com quase setecentos anos, sou infinito na finitude do momento. De cada vez que saboreio entre os dedos os primeiros documentos que herdei do meu av\u00f4 sinto na pele a sua m\u00e3o, o seu cheiro, a sua paix\u00e3o, a sua Presen\u00e7a, e somos de novo, dois imortais a saborear a brevidade do tempo\u2026<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Apesar de viajar muitas vezes pelo passado, que \u00e9 o tempo da minha biblioteca, sou um homem do presente que procura nela, e para ela, o futuro. Entendo que a minha cole\u00e7\u00e3o \u00e9 merecedora de todos os cuidados que lhe possa oferecer. Por isso n\u00e3o hesitei em aceitar este projecto da Universidade do Porto, Alma Mater da minha forma\u00e7\u00e3o profissional apaixonada. Abrir a minha colec\u00e7\u00e3o \u00e0 digitaliza\u00e7\u00e3o enquanto ferramenta de trabalho da Academia foi o desafio.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Agora, que o projecto come\u00e7a a ver a luz do dia, sinto-me um privilegiado por ter tido a oportunidade de cuidar t\u00e3o bem da minha cole\u00e7\u00e3o. Estou certo de que ela \u00e9, agora, mais completa, tem mais sentido como um todo. A desmaterializa\u00e7\u00e3o que a tornou acess\u00edvel ao estudo da \u201cAcademia\u201d, onde quer que ela esteja, quem quer que ela seja, permitir\u00e1 que despontem flores de conhecimento que outrora lhe estavam vedadas.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Imp\u00f5e-se um agradecimento especial \u00e0 equipa do CITCEM da Faculdade de Letras da Universidade do Porto que tornou este trabalho poss\u00edvel.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Termino exortando outros bibli\u00f3filos cuidadores a aceitarem o mesmo desafio. Pelo menos a pensarem nisso.<br>\u201cPensar \u00e9 agradecer. A filosofia n\u00e3o \u00e9 outra coisa que n\u00e3o o amor do belo e do bom\u201d (3).<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Junho de 2021,<br>Um Bibli\u00f3filo an\u00f3nimo do s\u00e9culo XX<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>(1) In HAN, Byung-Chul Han \u2013 Louvor da Terra. Lisboa: Rel\u00f3gio d\u2019\u00c1gua, 2020, p. 70.<br>(2) Inspirado em Byung-Chul Han: \u201cA digitaliza\u00e7\u00e3o aumenta o ru\u00eddo da comunica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o s\u00f3 acaba com o sil\u00eancio, mas tamb\u00e9m com o t\u00e1ctil, com o material\u2026 Em \u00faltima an\u00e1lise, a digitaliza\u00e7\u00e3o elimina a pr\u00f3pria realidade. \u2026 O meu jardim \u00e9, para mim, a realidade recuperada\u201d (in HAN, Byung-Chul Han \u2013 Louvor da Terra, p. 113).<br>(3) In HAN, Byung-Chul Han \u2013 Louvor da Terra, p. 99.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:buttons --><\/p>\n<div class=\"wp-block-buttons\"><!-- wp:button {\"align\":\"center\",\"className\":\"is-style-outline\",\"fontSize\":\"huge\"} --><p><\/p>\n<div class=\"wp-block-button aligncenter has-custom-font-size is-style-outline has-huge-font-size\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/id.letras.up.pt\/citcem-fontes-documentais\/colecao-guimaraes\/\">Ver cole\u00e7\u00e3o Guimar\u00e3es<\/a><\/div>\n<p><!-- \/wp:button --><\/p><\/div>\n<p><!-- \/wp:buttons --><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A minha cole\u00e7\u00e3o, a minha vida. 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