Keynote Speaker
Vernacular


Lúcia Rosas
Faculdade de Letras da Universidade do Porto
Lúcia Rosas licenciou-se em História na FLUP em 1980, prosseguindo os estudos com uma pós-graduação em História da Arte pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, em 1983. Em 1987 apresentou, na FLUP, as Provas de Aptidão Pedagógica e Capacidade Científica, com o trabalho de síntese “A escultura românica nas igrejas da margem esquerda do rio Minho” e a lição sobre “Arte românica – restauro e conservação”.
Obteve o grau de doutora em História da Arte em 1996, com a tese “Monumentos Pátrios. A arquitetura religiosa medieval – património e restauro (1835-1929)”, e, em 2005, fez as Provas de Agregação na mesma instituição, com a lição-síntese “A arquitetura gótica da raia transmontana e beirã”.
Ao longo de quase quatro décadas de atividade docente e investigativa, Lúcia Rosas construiu uma carreira dedicada ao estudo do património artístico, com enfoque especial na arte e arquitetura medievais.
O seu trabalho de investigação centra-se sobretudo na arquitetura românica portuguesa e na preservação do património, tendo resultado na publicação de vários livros, capítulos de obras coletivas e dezenas de artigos científicos, divulgados em Portugal e no estrangeiro. Esta vasta produção contribuiu para o conhecimento aprofundado da arte medieval portuguesa e foi difundida em editoras e revistas de renome internacional, reforçando o reconhecimento da sua especialidade a nível global.
Paralelamente à investigação, Lúcia Rosas desempenhou um papel de destaque na formação de novos especialistas em História da Arte e Património. Orientou inúmeras dissertações de mestrado e teses de doutoramento e transmitiu os seus conhecimentos em diversas unidades curriculares nas referidas áreas, influenciando várias gerações de estudantes.
Participou também na organização de congressos e colóquios científicos, em Portugal e no exterior, nos quais apresentou comunicações e conferências, promovendo a discussão académica em torno do património cultural.
No âmbito da gestão académica e científica, assumiu vários cargos de relevo. Foi diretora do Departamento de Ciências e Técnicas do Património da FLUP e membro de órgãos como o Conselho Pedagógico e o Conselho de Representantes da faculdade, contribuindo para a vida institucional da FLUP. Foi também investigadora integrada do CITCEM – Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória e coordenou o grupo de investigação “Património Tangível e Intangível”, liderando projetos e linhas de investigação voltados para a salvaguarda e valorização do património histórico.
Resumo
PT - A arquitetura vernacular no mundo rural, hoje: obsolescência ou desafio?
A arquitetura vernacular, tradicionalmente entendida como resultado de uma adaptação direta às condições locais, aos recursos disponíveis e aos modos de vida das comunidades, perdeu parte da sua função original. Casas, adegas, lagares, armazéns e outras estruturas agrícolas deixaram de responder exclusivamente às necessidades de uma economia de subsistência ou de uma agricultura familiar, passando a assumir novas funções, ou permanecendo como testemunhos de um modelo rural em transformação.
O estudo analisa esta mudança através da relação entre arquitetura vernacular, transformação socioeconómica e evolução da paisagem rural, procurando identificar os princípios que permanecem relevantes para a contemporaneidade. A análise evidencia uma passagem de uma arquitetura essencialmente funcional e produtiva para uma arquitetura frequentemente orientada para novos usos, valorização patrimonial, turismo, habitação e experiências de relação com o território.
Esta transformação coloca, contudo, uma questão fundamental: como preservar a identidade e os conhecimentos presentes na arquitetura vernacular sem transformar o património rural numa imagem estática ou numa representação do passado? Os resultados apontam para a necessidade de uma abordagem baseada na continuidade e na adaptação, capaz de reutilizar as estruturas existentes, reinterpretar técnicas e materiais locais e recuperar princípios de adaptação climática, economia de recursos e integração na paisagem.
A arquitetura vernacular deve ser entendida não como um conjunto de formas imutáveis, mas como um processo de construção do território em permanente transformação. O desafio contemporâneo consiste em estabelecer uma continuidade crítica entre memória e inovação, permitindo que a arquitetura continue a responder às necessidades do mundo rural atual sem perder a relação cultural, ambiental e material que historicamente a ligou ao lugar.