Cem anos: Sem planos.
APRESENTAÇÃO DAS COMEMORAÇÕES CIENTÍFICAS, SOCIAIS E CULTURAIS NO CENTENÁRIO DE IVAN ILLICH
Embora tenha tido amplo eco, nos anos 1970, graças a um conjunto de obras incisivas que vieram questionar profundamente os pressupostos institucionais de sectores-chave da sociedade moderna, Ivan Illich (1926-2002) nunca se limitou a ser um polemista ou um observador do mundo que lhe era contemporâneo, preferindo quase sempre um viés onde a profundidade histórica e filosófica iluminasse a partir de dentro as práticas hodiernas que discutia criticamente. Poder-se-á dizer que Illich não só prolongou a grande tradição do pensamento crítico, como a renovou no contacto com os mais diversos horizontes culturais. Senhor de uma subtil e inusitada combinação do legado filosófico e teológico da cultura europeia com o conhecimento das culturas vernáculas que entendeu mais atentas à convivialidade e a outros saberes, ele foi elaborando, ao longo dos anos, perspectivas ousadas sobre as aporias que as nossas sociedades industriais têm vindo a acumular.
Passados cem anos sobre o seu nascimento, a evocação de uma tal figura não poderá resumir-se à simples recapitulação do seu trabalho intelectual ou do seu percurso público. Isto pela simples razão de uma parte substancial da sua obra ser ainda pouco conhecida e raramente ter sido objecto de estudo sistemático nas duas décadas que decorreram desde o seu desaparecimento. Marcada pelo período (anos 1970-80) em que o seu pensamento foi quase universalmente conhecido e discutido, a reputação do autor de A Convivialidade foi suscitando vivo interesse em públicos diversificados, mas não permitiu a formação de uma visão de conjunto do seu legado.
Esse é o desafio que se abre hoje àqueles que pretendem evocá-lo. Há sinais que vão nesse sentido: neste ano do centenário, diversas iniciativas em torno do seu pensamento – colóquios, investigação, novas edições – têm tido lugar em diversos países. Filósofos, teólogos, sociólogos, artistas, educadores e muitos outros têm revisitado Illich, beneficiando das perspectivas abertas pela distância temporal e pela renovação da sua recepção.
Por essa razão, e porque Illich não pertenceu a nenhuma escola ou domínio, esta iniciativa é partilhada por um espectro amplo de áreas académicas, artísticas e sociais já interessadas na sua vida e obra ou em vias de as descobrir nesta ocasião. E porque Illich foi um pensador sempre capaz de surpreender mesmo aqueles que o seguiam atentamente quando manifestava facetas que não é comum encontrar reunidos na mesma personalidade, ele pede-nos uma revisitação o mais possível abrangente das interconexões por ele suscitadas, das mais conhecidas àquelas que têm permanecido quase confidenciais. Percorrendo perspectivas semiológicas, sócio-políticas, ecológicas, urbanísticas, teológicas e filosóficas, entre outras, a obra de Ivan Illich parece ter sido destinada pelo seu autor à incompletude: não aquela própria da vicissitude biográfica, mas a incompletude que acolhe e se deixa continuar por aqueles que a descobrem. Obra aberta, pois, no seu sentido literário, filosófico e pragmático, ela readquire um novo sentido de actualidade, uma actualidade temporal e textualmente profunda, como Illich a entendia e praticava.
Dados estes pressupostos, decidimos reunir às iniciativas mais usuais nestas comemorações, como o são a retrospectiva de um legado e a homenagem a um autor, o convite ao diálogo com as circunstâncias nossas contemporâneas. Desde logo porque Illich, mais do que uma figura que se destacou numa ou mais actividades, foi aquele que questionou o sentido e a organização social da práxis intelectual, laboral e social, ele que foi sempre, na igreja, na sociedade ou na universidade, o crítico determinante da penetração dos modelos de produtividade industrial nos mais diversos domínios e o intérprete da «topologia mental» da modernidade.
A configuração desta iniciativa não podia, portanto, limitar-se à reprodução do fechamento institucional que Illich sempre criticou. Para isso, privilegiar-se-á a articulação entre instituições académicas e espaços sociais com estatutos diversos. Destacamos aqui oito domínios que podem acolher trabalhos e iniciativas:
a) A técnica: os sistemas e as concepções do utensílio;
b) A crítica do desenvolvimento e a contra-produtividade;
c) A actualidade das práticas vernaculares;
d) Corpo, proporcionalidade e a alienação da experiência;
e) A convivialidade e a crítica das instituições;
f) O teólogo diante da era industrial: entre o pensamento medieval e a condição contemporânea;
g) A semiologia illichiana: as artes, os sentidos e as mediações.
h) Um percurso intelectual: os elementos biográficos e bibliográficos.